Era uma terça feira chuvosa, como todos os dias naquela maldita cidade que há pouco me mudara. Londres deixara de ser meu sonho de consumo depois do primeiro mês sem sentir um único raio de sol sobre mim. Estava em um café, escrevendo um texto qualquer, quando alguém bate a porta, balança seu guarda-chuva com certa irritação e balbucia alguns xingamentos em português. Isso, lógico, chama minha atenção na mesma hora. Levanto a cabeça e espero que o rapaz se vire. O choque ao reconhecer aquele rosto, agora mais velho, que tanto esteve em meus pensamentos e que, finalmente, tinha superado foi imenso. Não conseguia disfarçar.
Ele abre um sorriso, como se encontrasse uma amiga que não via há uma semana. Passaram-se anos, lembro. Vem até mim.
- Quanto tempo! – Diz.
- Muito tempo. Faz o que? Uns dez anos?
- Nove anos e sete meses. – Diz, envergonhado.
Errado. Nove anos, seis meses e três semanas.
- É, isso mesmo.
O silêncio se torna constrangedor, até que reúno forças.
- Senta. – Convido.
Ele assim o faz e começa falar alguma coisa que eu não consigo prestar atenção. As linhas de expressão são as mesmas, assim como o sorriso ainda um pouco torto. Não engordou nem estava careca, como eu torcia. Está ainda mais bonito do que antes.
- E você?
Isso me faz acordar.
- Ahn? Eu o quê?
Ele ri.
- Você não está prestando atenção em mim!
Eu rio.
- Desculpe. É meio estranho te encontrar por aqui.
- Pois eu acho maravilhoso.
Desvio meu olhar para o croissant, intocado no meu prato.
- Conseguiu seu emprego dos sonhos, então? – Perguntou-me.
- Consegui. E você? Conseguiu lançar seus livros e se tornar um daqueles poetas incompreendidos?
- Uhum. Acho que valorizamos demais nossas profissões, não?
- Como assim?
- Por exemplo, está casada?
Levanto minha mão e mostro o anel de noivado em meu dedo.
- Noiva.
- E está apaixonada?
- E casaria sem estar?
- Não sei! Quantas mulheres não fazem isso?
- Por que mulheres? Homens também!
- Tudo bem, quantos homens e quantas mulheres não fazem isso? – Corrige, rindo.
- Tá certo. Vários. E várias. Mas eu gosto de meu noivo. Bastante.
- Eu perguntei se você está apaixonada. É aquela pessoa que te faz tremer, é aquela pessoa que sempre esteve em seus sonhos, seja atormentando ou te fazendo a mulher mais feliz?
- Não sei. Talvez não. Talvez seja aquela pessoa que me dá estabilidade, que me faz bem. Que me ama. Chega uma hora que a segurança no relacionamento, o companheirismo, todos aqueles sentimentos bons passam a ser mais importantes do que simplesmente a paixão. Ou você não concorda?
- Engraçado, eu esperava qualquer pessoa falando isso, mas não você.
- Não me coloque nessa capsula do tempo. Há dez anos eu era muito diferente.
- Será mesmo?
- E você? Completamente apaixonado?
- Não. Eu casei, vi que não ia ter aquilo que tive só uma vez na vida, e me separei. Agora só encontros casuais, sem compromisso.
- Já encontrou algum caso inglês?
- Já. – Disse rindo, logo em seguida ficando sério. – Eu senti tanto sua falta.
Meus olhos fixaram-se nos dele.
- Eu também. De alguma forma, sempre faltou um pedaço de mim. Mas enfim, continue sua teoria sobre termos valorizado demais nossas carreiras.
- Ah, sim. Você e sua capacidade de distrair. Então, nós renunciamos ao que dizíamos ser a coisa mais importante, o amor, por causa de nossos empregos, nossos objetivos profissionais. E hoje estamos aqui, no topo do que sonhamos e, não sei quanto a você, mas eu não sou a pessoa mais feliz do mundo.
- Mas nós não nos separamos por causa de nossas carreiras. E sei lá, eu não percebi o momento em que a vida me deu duas opções: ou sua vida pessoal ou a profissional. Eu fui levada. As circunstâncias conspiraram.
- Teria feito algo de diferente?
- Acho que sim. Ou não.
- Decida-se – Disse, rindo.
- Eu não sei! É claro que sinto falta de sentir aquilo, sabe? Mas sabe se lá como estaríamos hoje.
- Pois eu não pensaria duas vezes, se pudesse voltar àquilo.
Quando dei por mim, estávamos próximos demais, para duas pessoas já estranhas uma para a outra.
- É melhor eu ir.
- Não, por favor.
- Está tarde.
- Você não pensa que essa pode ser a última vez que estamos nos falando? Você vai sair por essa porta e vamos nos perder. De novo.
Ele pegou minha mão. E tudo voltara. Aquela sensação que você só tem quando está já sem consciência do que faz.
Os rostos se aproximaram, os lábios já se tocavam. O beijo foi intenso, como se todos os anos perdidos fossem ser recuperados. E, numa fração de segundos, afastei-o rapidamente e levantei.
- Desculpa. – Disse, ainda com minhas mãos nas dele.
- Senta aqui.
- Tchau! – Larguei-me e virei rápido, para que não visse meus olhos já marejados.
Saí daquele café sem me lembrar de pegar o guarda-chuva. No caminho para casa, as lágrimas se fundiam às gotas de chuva e eu, por mais que negasse, torcia para que essa cidade pregasse novas coincidências e colocasse-nos frente a frente, mais uma vez.
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
terça-feira, 19 de outubro de 2010
- Ok, then let me ask you something. What is gonna make you happy? It's how you look, the car you drive, or the people you know? Is the money, or celebrity, power or complishments? Cause I don't think it's enough.
- So what it is?
- Love, I think. And that love can be for a boy, or a girl, or a place, or a way of life, or even for a family. But where you find it, it's up to you. So where you gonna find that love?
- So what it is?
- Love, I think. And that love can be for a boy, or a girl, or a place, or a way of life, or even for a family. But where you find it, it's up to you. So where you gonna find that love?
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
Eu trocaria a eternidade por aquela noite.
- Oi
- Oi
- Namorando, então?
Ela riu.
- Não tô namorando, não.
- Ah, não? Depois homem que não presta.
Ela riu de novo.
- O que você quer dizer com isso?
- Você deixa o menino completamente apaixonado, não se importa de ficar com ele na frente de todos e ainda diz que não é namoro?
- Primeiro de tudo, eu não sei se ele tá apaixonado ou não. Segun...
- Não sabe? Pois eu sei muito bem! – Cortou.
- ... Como eu ia dizendo, segundo ponto, eu não me acostumo com esse negócio de ficar com alguém em uma noite e fingir que nada aconteceu no outro dia. – E olhou pra ele com uma das sobrancelhas levantadas.
- Outch. Essa foi forte. – Ele brincou – É meio confuso, mas eu não gosto disso também. Às vezes você está em uma festa, a vontade surge, a situação conspira e você faz. No outro dia é tudo diferente e você pode ter outra pessoa em mente.
Ela ficou séria.
- Eu vou fingir que não ouvi isso, tudo bem?
- Por quê?
- Deixa pra lá. Tenho que ir. Beijo. – E levantou-se.
- Fica. – Pediu e segurou sua mão.
Os segundos congelaram.
- Não posso. Beijo.
Ele se levantou, as mãos ainda juntas.
- O que você está fazendo?
- Não parece bastante claro?
Segurou em sua cintura e aproximou de forma delicada seu rosto ao dela.
- Eu não tenho problema em ficar com você aqui, na frente de todos.
Com as mãos, afastou-o.
- Desculpa. Tarde demais. Lembra quando eu te falei que dificilmente eu desejava uma coisa e facilmente ela se tornava indiferente para mim? Tchau.
Beijou-o no rosto e saiu, sem olhar para trás.
domingo, 18 de julho de 2010
Nem lembrava o tanto que eu gostava...

A partir do momento em que você larga o convívio com seus, até então, amigos, manter contato torna-se uma tarefa bastante difícil, às vezes. Uma discussão pode gerar um distanciamento definitivo e, daqui a um tempo, não há sequer intimidade para retomar a relação. As novidades surgem e as conversas não acompanham, fazendo que você um estranho. Não há mais nada que os una, exceto a dedicação de não esquecer e não ser esquecido.
Pessoas entram em sua vida, tomam espaços, ocupam finais de semana e passam a ser mais presentes do que os antigos companheiros de aula. Os trabalhos em grupo, as saídas, as vésperas de provas, os testes em dupla, a preocupação com qual carreira seguir... Nada disso terá o mesmo peso de outrora. Crescemos. É hora de se abrir a novas experiências e, junto delas, novas amizades.
Ao longo de minha vida, afastei-me de pessoas que todos diriam ser ‘para sempre’. Lembra daquelas férias, onde eu te ligava todos os dias para a gente brincar na frente do prédio? Lembra das tardes em que íamos uma na casa da outra só pra conversar e ouvir música? Lembra que seríamos madrinha uma do filho da outra? Lembra que tu ias todos os dias lá em casa e hoje eu sequer lembro teu nome, amigo? Eu não me esqueci de nenhum de vocês, eu só cresci. E a maldita idéia de que não podemos levar todos para o resto da vida vez com que nos distanciássemos.
Mas eu ainda guardo memórias de cada uma que fui com cada um de vocês. Eu sou um retalho de todos vocês. E espero que esteja, ainda que pouco, num sorriso ou numa lembrança quando olharem para trás.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
Versos ao vento vão.

Sofro de um mal. Um mal que quase ninguém sofre: Sofro por não sofrer. Lamento-me pela lágrima não despendida por alguém; pelas tardes não gastas relembrando cenas e sonhando com o príncipe encantado. Não há nada que me faça surpreendida. Músicas dedicadas com o propósito da conquista? Sinto muito. A inércia não física, mas emocional me consome dia a dia, ano a ano.
Também não sou alegre. Nunca encontrarão sorrisos despropositados somente pela alegria de viver. Desistam. Tenho como parte de mim uma melancolia que guarda o passado e a mim mesma a sete chaves. Um apego a tudo que já foi, um desprezo de tudo que é e uma idéia fantasiosa do que está por vir.
‘Sou favorável a mais ilusões, menos realidade’, já disse Carpinejar, e, de acordo com ele, guardo desapego de tudo que é palpável e, em compensação, anseio por palavras, sorrisos, olhares. Dou valor ao inestimável para dispensar os extratos.
quarta-feira, 14 de julho de 2010
Arte de [re]inventar.
Que necessidade é essa de começar e recomeçar tudo outra vez? Como se pudesse contar minha história desde as primeiras linhas e, dessa forma, re-desenhá-las mais bonitas em traços mais fortes e definidos.
Absurdo este de querer apagar o que não deu certo, o que não se concluiu. Talvez sejam esses rabiscos inacabados e mal-feitos que façam de mim o que sou. O que serei. O maior erro é atribuir bons acontecimentos a outros bons acontecimentos. É do engano que surge o perdão; Da briga, o abraço; Do choro, o ombro para se apoiar.
É um receio de me definir e arcar com todos os prós e contras. É um erro que me permito, pra provar que aceito o imperfeito.
E, como objeto de minha imperfeição, cá está esse blog, permitindo novos rascunhos para que eu possa, enfim, fazer um auto-retrato se não mais perto do que sou, mais perto do que quero ser.
Assinar:
Comentários (Atom)