No momento em que nós decidimos nos afastar - desculpe, o orgulho me impede de admitir que a escolha foi completamente sua -, tive medo. Toda aquela segurança de outrora se esvaiu e me vi sozinha. Longe daqueles braços que tinham o poder de me acalmar, longe aquele sorriso que trazia a mais pura das felicidades, longe das conversas pelas quais daria tudo para revivê-las. Perdi qualquer orgulho e implorei tua presença, implorei que devolvesses a mim aquilo que prometeste ser meu. Era meu por direito. E numa noite qualquer, me foi tirado. Perdi a mim mesma no momento em que aquelas palavras foram pronunciadas.
Tive medo que o tempo fosse capaz de nos superar. Pensei que cada dia que conseguisses passar sem mim seria um degrau na escada do esquecimento. Por isso, me impus, me fiz presente e me machuquei. Eu não queria que ficasses melhor com o passar dos dias, assim como fazia questão de demonstrar que também não estava melhor. Achei que nos reinventando, obrigatoriamente, nos reinventaríamos sozinhos. E assim você o fez.
Foi nesse momento em que percebi que todo o amor que sentia era exclusivamente aquele que se mostrava para mim, que se fazia sempre importante e importado, aquele que fazia de mim a prioridade em sua vida. Exagerei, ainda que esse exagero tenha sido causado por ter te feito tão grande dentro de mim. Grande a ponto de não conseguir me reinventar longe de ti e fiquei para trás na disputa que se criava em minha cabeça.
Hoje penso que ter respeitado a distância inicial era a única chance de, quem sabe, termos nos reconciliado e vivido esse amor que tanto nos foi prometido. O tempo não nos faria superar um o outro. O desgaste a que nos submetemos fará. A distância só traria a saudade e a consequente percepção de que éramos feitos para ficarmos juntos, lembra? Você me disse e eu acreditei nessas palavras que agora não largam minha memória.
As lágrimas não se contêm e eu não faço mais questão disso. Todos sabem o quanto te amei e o quanto já lutei contra isso, tanto antes de admiti-lo quanto depois. Ainda luto, porém agora com o tempo, a distância e as feridas que fomos capazes de abrir um no outro como aliados.
E o que me importa...
... São mais perguntas que respostas...
sábado, 23 de fevereiro de 2013
terça-feira, 26 de julho de 2011
A tarde quer mais que um susto...
Os pés se roçavam no ritmo da música que vinha da sala e chegava ao quarto num volume quase imperceptível. De resto, silêncio. As cortinas balançavam com o vento que batia na janela metade aberta, fazendo com que os raios de sol aparecessem e iluminassem aquele rosto, que logo adquiria uma expressão de desgosto, lembrando o tanto que ela não gostava de sol.
Uma de suas mãos segurava meu braço, arranhando devagar com as unhas. De vez em quando, ria sem motivo algum, com os olhar na direção do teto. Era nessas horas em que eu tomava coragem de falar.
- Que foi?
Como sempre, ela virava o rosto, olhava para mim, ainda sorrindo, e me beijava, emendando um “nada, não”. Eu sabia que ela faria isso. E era exatamente o que eu queria.
E eu? Bem, meu caro, sabe quando tê-la já é o suficiente? Eu só queria estar ali, sem maiores preocupações. Pela primeira vez, ter o simples foi tão complicado, que me bastou.
A vontade de dizer “Eu te amo” foi quase incontrolável. Com mais dez segundos, eu arrisco dizer que teria pronunciado as três palavras que, juntas, sempre foram tão difíceis. Digo isso, porque quando o “Eu...” já tinha ido, fui interrompido. Ela se levantou, olhou para mim, ainda deitado, e disse:
- Vamos jogar videogame?
Eu sorri e só concordei. Sim, eu a amava e ela sabia disso. E, pela primeira vez, eu concordei com ela, quando me dizia que nem tudo precisa ser dito.
Uma de suas mãos segurava meu braço, arranhando devagar com as unhas. De vez em quando, ria sem motivo algum, com os olhar na direção do teto. Era nessas horas em que eu tomava coragem de falar.
- Que foi?
Como sempre, ela virava o rosto, olhava para mim, ainda sorrindo, e me beijava, emendando um “nada, não”. Eu sabia que ela faria isso. E era exatamente o que eu queria.
E eu? Bem, meu caro, sabe quando tê-la já é o suficiente? Eu só queria estar ali, sem maiores preocupações. Pela primeira vez, ter o simples foi tão complicado, que me bastou.
A vontade de dizer “Eu te amo” foi quase incontrolável. Com mais dez segundos, eu arrisco dizer que teria pronunciado as três palavras que, juntas, sempre foram tão difíceis. Digo isso, porque quando o “Eu...” já tinha ido, fui interrompido. Ela se levantou, olhou para mim, ainda deitado, e disse:
- Vamos jogar videogame?
Eu sorri e só concordei. Sim, eu a amava e ela sabia disso. E, pela primeira vez, eu concordei com ela, quando me dizia que nem tudo precisa ser dito.
quarta-feira, 22 de junho de 2011
Sabe aquela sensação que você tem quando já está totalmente inconsciente de qualquer ato ou fala?
Foi naquele momento que os olhos dele fixaram em mim.
Fazia mais de três meses que não nos víamos. Confesso que já era bem mais fácil passar os dias, não lembrar tanto... Acho que tinham semanas que nenhuma música, nenhum livro ou filme me traziam à memória aqueles tempos. E era bom. Já estava quase confortável não sentir mais aquelas misturas de sentimentos, ora maravilhosos, ora detestáveis.
Pois é, tudo isso sumiu do segundo exato que o avistei. Droga, como podia ser tão difícil? Acho que o álcool fez tudo parece mais fantasioso do que realmente foi, mas o fato é que doía.
“Oi”
“oi”
“Tudo certinho?”
“Uhum. Ah... oi”
É, foi basicamente isso. O segundo “oi” foi para a menina que estava com ele. Ela era linda, mas é claro que ninguém me disse isso. Nem eu conseguia dizer isso. E eles pareciam felizes. É claro que isso também ninguém me disse.
A festa continuou para todos, exceto pra mim, que parecia ter levado um soco no estômago.
Numa hora qualquer, que se me dissessem que passavam das sete da manhã, eu acreditaria, fui ao banheiro retocar a maquiagem e fugir de tudo.
Ao sair, como não poderia deixar de ser, encontrei com ele, ou melhor, esbarrei nele.
“Erm... Desculpa. Com licença”
“Tudo bem”
“Hey”
Virei. E não deu tempo de mais nada. As mãos dele estavam em minha cintura e sua boca mais próximo do que eu poderia imaginar. É, um beijo.
Um beijo que trouxe à tona os seis meses de namoro. Momentos bons, momentos ruins. Confesso que apesar dos momentos bons terem sido maioria, me concentrei para lembrar tudo que nos levara até essa situação. Juntei todos eles e criei coragem para sair daquela zona de conforto.
“Tchau, Fernando”
“Não”
Ele falaria mais alguma coisa, mas nossas mãos já se soltavam e eu estava distante o suficiente para não ouvir mais.
Foi naquele momento que os olhos dele fixaram em mim.
Fazia mais de três meses que não nos víamos. Confesso que já era bem mais fácil passar os dias, não lembrar tanto... Acho que tinham semanas que nenhuma música, nenhum livro ou filme me traziam à memória aqueles tempos. E era bom. Já estava quase confortável não sentir mais aquelas misturas de sentimentos, ora maravilhosos, ora detestáveis.
Pois é, tudo isso sumiu do segundo exato que o avistei. Droga, como podia ser tão difícil? Acho que o álcool fez tudo parece mais fantasioso do que realmente foi, mas o fato é que doía.
“Oi”
“oi”
“Tudo certinho?”
“Uhum. Ah... oi”
É, foi basicamente isso. O segundo “oi” foi para a menina que estava com ele. Ela era linda, mas é claro que ninguém me disse isso. Nem eu conseguia dizer isso. E eles pareciam felizes. É claro que isso também ninguém me disse.
A festa continuou para todos, exceto pra mim, que parecia ter levado um soco no estômago.
Numa hora qualquer, que se me dissessem que passavam das sete da manhã, eu acreditaria, fui ao banheiro retocar a maquiagem e fugir de tudo.
Ao sair, como não poderia deixar de ser, encontrei com ele, ou melhor, esbarrei nele.
“Erm... Desculpa. Com licença”
“Tudo bem”
“Hey”
Virei. E não deu tempo de mais nada. As mãos dele estavam em minha cintura e sua boca mais próximo do que eu poderia imaginar. É, um beijo.
Um beijo que trouxe à tona os seis meses de namoro. Momentos bons, momentos ruins. Confesso que apesar dos momentos bons terem sido maioria, me concentrei para lembrar tudo que nos levara até essa situação. Juntei todos eles e criei coragem para sair daquela zona de conforto.
“Tchau, Fernando”
“Não”
Ele falaria mais alguma coisa, mas nossas mãos já se soltavam e eu estava distante o suficiente para não ouvir mais.
domingo, 19 de junho de 2011
Clementine: This is it, Joel. It's going to be gone soon.
Joel: I know.
Clementine: What do we do?
Joel: Enjoy it.
Como doía olhar aquelas fotografias. Era como se as imagens ganhassem vida e passassem bem diante dos olhos, mostrando toda a alegria que eu quase nem lembrava um dia ter sentido. Os momentos ruins de repente sumiam e tudo que eu pensava era no sorriso tão presente durante aqueles poucos meses.
Tinha passado pouco tempo na companhia dele e confesso que brigávamos mais do que o normal, o que faz tudo parece um pouco de exagero, mas sabe aquela sensação de chegar em casa? De descansar a cabeça nos ombros dele e saber que ele vai te abraçar e vocês ficarão ali por longos minutos, até que você se sinta melhor? De ficar horas falando sobre nada ou simplesmente no silêncio, com a certeza de que aquele lugar e aquela companhia são as melhores possíveis? De, num mundo tão gigantesco, você ter encontrado não o amor da tua vida, mas alguém tão diferente e tão parecido ao mesmo tempo? Durante esses pouco mais de cem dias, foi assim que eu me senti. E, acredite, foi a melhor sensação do mundo.
Às vezes penso se não deveria existir aquela máquina de apagar memórias, como no filme “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”. Imagina um dia acordar sem todo esse peso de ter sido tão feliz? É injusto para todos os outros que aparecerem em minha vida. Ter de competir com uma realidade passada que deixou de ser realidade há muito tempo, que agora é só um ideal do que nem deve ter existido.
Mas não, eu não apagaria nada de ti, nada de nós. São nessas horas que eu percebo como sou apegada a essas lembranças e como é bom – apesar de dolorido... e muito dolorido – reviver tudo isso num domingo a tarde, com todo aquele saudosismo que lacrimeja meus olhos, enquanto eu fico aqui, na tentativa de te fazer perceber como és importante e implorando com meu silêncio para que voltes.
Joel: I know.
Clementine: What do we do?
Joel: Enjoy it.
Como doía olhar aquelas fotografias. Era como se as imagens ganhassem vida e passassem bem diante dos olhos, mostrando toda a alegria que eu quase nem lembrava um dia ter sentido. Os momentos ruins de repente sumiam e tudo que eu pensava era no sorriso tão presente durante aqueles poucos meses.
Tinha passado pouco tempo na companhia dele e confesso que brigávamos mais do que o normal, o que faz tudo parece um pouco de exagero, mas sabe aquela sensação de chegar em casa? De descansar a cabeça nos ombros dele e saber que ele vai te abraçar e vocês ficarão ali por longos minutos, até que você se sinta melhor? De ficar horas falando sobre nada ou simplesmente no silêncio, com a certeza de que aquele lugar e aquela companhia são as melhores possíveis? De, num mundo tão gigantesco, você ter encontrado não o amor da tua vida, mas alguém tão diferente e tão parecido ao mesmo tempo? Durante esses pouco mais de cem dias, foi assim que eu me senti. E, acredite, foi a melhor sensação do mundo.
Às vezes penso se não deveria existir aquela máquina de apagar memórias, como no filme “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”. Imagina um dia acordar sem todo esse peso de ter sido tão feliz? É injusto para todos os outros que aparecerem em minha vida. Ter de competir com uma realidade passada que deixou de ser realidade há muito tempo, que agora é só um ideal do que nem deve ter existido.
Mas não, eu não apagaria nada de ti, nada de nós. São nessas horas que eu percebo como sou apegada a essas lembranças e como é bom – apesar de dolorido... e muito dolorido – reviver tudo isso num domingo a tarde, com todo aquele saudosismo que lacrimeja meus olhos, enquanto eu fico aqui, na tentativa de te fazer perceber como és importante e implorando com meu silêncio para que voltes.
domingo, 6 de março de 2011
10 things I hate about you
I hate the way you talk to me
and the way you cut your hair
I hate the way you drive my car
I hate it when you stare
I hate you big dumb combat boots
and the way you read my mind
I hate you so much it makes me sick
It even makes me rhyme
I hate it - I hate the way you're always right
I hate when you lie
I hate it when you make me laugh,
even worse when you make me cry
I hate when you're not around
and the fact you didn't call
But mostly, I hate the way
I don't hate you, not even close,
not even a little bit,
not even at all.
and the way you cut your hair
I hate the way you drive my car
I hate it when you stare
I hate you big dumb combat boots
and the way you read my mind
I hate you so much it makes me sick
It even makes me rhyme
I hate it - I hate the way you're always right
I hate when you lie
I hate it when you make me laugh,
even worse when you make me cry
I hate when you're not around
and the fact you didn't call
But mostly, I hate the way
I don't hate you, not even close,
not even a little bit,
not even at all.
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
We used to be together.
Uma semana. Silêncio. Duas semanas. Silêncio. Um mês. Não me agüento. Dou “oi”. Espero com ansiedade uma resposta, um sinal de vida, um gesto qualquer que me faça acreditar que não foi tudo imaginação. Mero engano. Recebo um “oi”. Indiferente. Sim, percebo no “oi” a indiferença que é quase sólida. Desanimo. A conversa segue mais algumas frases vazias, até que coloco um fim. Ele não sente sequer um alívio. Se houvesse alívio, teria existido tensão. Não existiu.
“Esfriou, entendeu?”, tento explicar para uma amiga. Quem sabe assim eu consiga explicar a mim. Esfriou como? Quando que ele deixou de me atordoar? Quando que eu deixei de causar aqueles olhares e risos constrangidos? Acho que até já esqueci seus horários. Nem tenho mais o impulso de ir aos lugares em que você está. Assim como não me incomoda mais o fato de passar um fim de semana inteiro sem notícias suas e depois saber que você estava com os meus amigos. Agora mais seus que meus.
Também não evito sua presença. Não é como se estivesse fugindo. Não. Podemos tranquilamente estar no mesmo lugar. Podemos até conversar horas sobre um livro, um filme, uma música. Veja só, quase esqueço que você nem gosta tanto assim de música. O problema principal nunca foi o que falamos. Falaríamos da mesma forma, das mesmas coisas. Ninguém nem perceberia. O que sempre nos fez diferente foi aquele silêncio. Aquele silêncio que falava mais do que qualquer conversa. O silêncio que nos aproximava. A conversa sempre distanciou.
O celular vibra. Vejo que é uma mensagem. Engraçado como é difícil perder alguns costumes! Leio a mensagem. Claro que não é você. Você dificilmente mandava mensagens. Algumas em horários estranhos. Bêbado, eu logo supunha. Sabe o que é pior? É que nada de ruim ou trágico aconteceu. A culpa foi inteiramente nossa. Afastamo-nos. Veja eu já falando em culpa. Não houve culpa. Houve falta de interesse. E o irônico disso tudo é que poucas vezes eu tive TANTO interesse.
“Esfriou, entendeu?”, tento explicar para uma amiga. Quem sabe assim eu consiga explicar a mim. Esfriou como? Quando que ele deixou de me atordoar? Quando que eu deixei de causar aqueles olhares e risos constrangidos? Acho que até já esqueci seus horários. Nem tenho mais o impulso de ir aos lugares em que você está. Assim como não me incomoda mais o fato de passar um fim de semana inteiro sem notícias suas e depois saber que você estava com os meus amigos. Agora mais seus que meus.
Também não evito sua presença. Não é como se estivesse fugindo. Não. Podemos tranquilamente estar no mesmo lugar. Podemos até conversar horas sobre um livro, um filme, uma música. Veja só, quase esqueço que você nem gosta tanto assim de música. O problema principal nunca foi o que falamos. Falaríamos da mesma forma, das mesmas coisas. Ninguém nem perceberia. O que sempre nos fez diferente foi aquele silêncio. Aquele silêncio que falava mais do que qualquer conversa. O silêncio que nos aproximava. A conversa sempre distanciou.
O celular vibra. Vejo que é uma mensagem. Engraçado como é difícil perder alguns costumes! Leio a mensagem. Claro que não é você. Você dificilmente mandava mensagens. Algumas em horários estranhos. Bêbado, eu logo supunha. Sabe o que é pior? É que nada de ruim ou trágico aconteceu. A culpa foi inteiramente nossa. Afastamo-nos. Veja eu já falando em culpa. Não houve culpa. Houve falta de interesse. E o irônico disso tudo é que poucas vezes eu tive TANTO interesse.
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Somewhere only we know.
Era uma terça feira chuvosa, como todos os dias naquela maldita cidade que há pouco me mudara. Londres deixara de ser meu sonho de consumo depois do primeiro mês sem sentir um único raio de sol sobre mim. Estava em um café, escrevendo um texto qualquer, quando alguém bate a porta, balança seu guarda-chuva com certa irritação e balbucia alguns xingamentos em português. Isso, lógico, chama minha atenção na mesma hora. Levanto a cabeça e espero que o rapaz se vire. O choque ao reconhecer aquele rosto, agora mais velho, que tanto esteve em meus pensamentos e que, finalmente, tinha superado foi imenso. Não conseguia disfarçar.
Ele abre um sorriso, como se encontrasse uma amiga que não via há uma semana. Passaram-se anos, lembro. Vem até mim.
- Quanto tempo! – Diz.
- Muito tempo. Faz o que? Uns dez anos?
- Nove anos e sete meses. – Diz, envergonhado.
Errado. Nove anos, seis meses e três semanas.
- É, isso mesmo.
O silêncio se torna constrangedor, até que reúno forças.
- Senta. – Convido.
Ele assim o faz e começa falar alguma coisa que eu não consigo prestar atenção. As linhas de expressão são as mesmas, assim como o sorriso ainda um pouco torto. Não engordou nem estava careca, como eu torcia. Está ainda mais bonito do que antes.
- E você?
Isso me faz acordar.
- Ahn? Eu o quê?
Ele ri.
- Você não está prestando atenção em mim!
Eu rio.
- Desculpe. É meio estranho te encontrar por aqui.
- Pois eu acho maravilhoso.
Desvio meu olhar para o croissant, intocado no meu prato.
- Conseguiu seu emprego dos sonhos, então? – Perguntou-me.
- Consegui. E você? Conseguiu lançar seus livros e se tornar um daqueles poetas incompreendidos?
- Uhum. Acho que valorizamos demais nossas profissões, não?
- Como assim?
- Por exemplo, está casada?
Levanto minha mão e mostro o anel de noivado em meu dedo.
- Noiva.
- E está apaixonada?
- E casaria sem estar?
- Não sei! Quantas mulheres não fazem isso?
- Por que mulheres? Homens também!
- Tudo bem, quantos homens e quantas mulheres não fazem isso? – Corrige, rindo.
- Tá certo. Vários. E várias. Mas eu gosto de meu noivo. Bastante.
- Eu perguntei se você está apaixonada. É aquela pessoa que te faz tremer, é aquela pessoa que sempre esteve em seus sonhos, seja atormentando ou te fazendo a mulher mais feliz?
- Não sei. Talvez não. Talvez seja aquela pessoa que me dá estabilidade, que me faz bem. Que me ama. Chega uma hora que a segurança no relacionamento, o companheirismo, todos aqueles sentimentos bons passam a ser mais importantes do que simplesmente a paixão. Ou você não concorda?
- Engraçado, eu esperava qualquer pessoa falando isso, mas não você.
- Não me coloque nessa capsula do tempo. Há dez anos eu era muito diferente.
- Será mesmo?
- E você? Completamente apaixonado?
- Não. Eu casei, vi que não ia ter aquilo que tive só uma vez na vida, e me separei. Agora só encontros casuais, sem compromisso.
- Já encontrou algum caso inglês?
- Já. – Disse rindo, logo em seguida ficando sério. – Eu senti tanto sua falta.
Meus olhos fixaram-se nos dele.
- Eu também. De alguma forma, sempre faltou um pedaço de mim. Mas enfim, continue sua teoria sobre termos valorizado demais nossas carreiras.
- Ah, sim. Você e sua capacidade de distrair. Então, nós renunciamos ao que dizíamos ser a coisa mais importante, o amor, por causa de nossos empregos, nossos objetivos profissionais. E hoje estamos aqui, no topo do que sonhamos e, não sei quanto a você, mas eu não sou a pessoa mais feliz do mundo.
- Mas nós não nos separamos por causa de nossas carreiras. E sei lá, eu não percebi o momento em que a vida me deu duas opções: ou sua vida pessoal ou a profissional. Eu fui levada. As circunstâncias conspiraram.
- Teria feito algo de diferente?
- Acho que sim. Ou não.
- Decida-se – Disse, rindo.
- Eu não sei! É claro que sinto falta de sentir aquilo, sabe? Mas sabe se lá como estaríamos hoje.
- Pois eu não pensaria duas vezes, se pudesse voltar àquilo.
Quando dei por mim, estávamos próximos demais, para duas pessoas já estranhas uma para a outra.
- É melhor eu ir.
- Não, por favor.
- Está tarde.
- Você não pensa que essa pode ser a última vez que estamos nos falando? Você vai sair por essa porta e vamos nos perder. De novo.
Ele pegou minha mão. E tudo voltara. Aquela sensação que você só tem quando está já sem consciência do que faz.
Os rostos se aproximaram, os lábios já se tocavam. O beijo foi intenso, como se todos os anos perdidos fossem ser recuperados. E, numa fração de segundos, afastei-o rapidamente e levantei.
- Desculpa. – Disse, ainda com minhas mãos nas dele.
- Senta aqui.
- Tchau! – Larguei-me e virei rápido, para que não visse meus olhos já marejados.
Saí daquele café sem me lembrar de pegar o guarda-chuva. No caminho para casa, as lágrimas se fundiam às gotas de chuva e eu, por mais que negasse, torcia para que essa cidade pregasse novas coincidências e colocasse-nos frente a frente, mais uma vez.
Ele abre um sorriso, como se encontrasse uma amiga que não via há uma semana. Passaram-se anos, lembro. Vem até mim.
- Quanto tempo! – Diz.
- Muito tempo. Faz o que? Uns dez anos?
- Nove anos e sete meses. – Diz, envergonhado.
Errado. Nove anos, seis meses e três semanas.
- É, isso mesmo.
O silêncio se torna constrangedor, até que reúno forças.
- Senta. – Convido.
Ele assim o faz e começa falar alguma coisa que eu não consigo prestar atenção. As linhas de expressão são as mesmas, assim como o sorriso ainda um pouco torto. Não engordou nem estava careca, como eu torcia. Está ainda mais bonito do que antes.
- E você?
Isso me faz acordar.
- Ahn? Eu o quê?
Ele ri.
- Você não está prestando atenção em mim!
Eu rio.
- Desculpe. É meio estranho te encontrar por aqui.
- Pois eu acho maravilhoso.
Desvio meu olhar para o croissant, intocado no meu prato.
- Conseguiu seu emprego dos sonhos, então? – Perguntou-me.
- Consegui. E você? Conseguiu lançar seus livros e se tornar um daqueles poetas incompreendidos?
- Uhum. Acho que valorizamos demais nossas profissões, não?
- Como assim?
- Por exemplo, está casada?
Levanto minha mão e mostro o anel de noivado em meu dedo.
- Noiva.
- E está apaixonada?
- E casaria sem estar?
- Não sei! Quantas mulheres não fazem isso?
- Por que mulheres? Homens também!
- Tudo bem, quantos homens e quantas mulheres não fazem isso? – Corrige, rindo.
- Tá certo. Vários. E várias. Mas eu gosto de meu noivo. Bastante.
- Eu perguntei se você está apaixonada. É aquela pessoa que te faz tremer, é aquela pessoa que sempre esteve em seus sonhos, seja atormentando ou te fazendo a mulher mais feliz?
- Não sei. Talvez não. Talvez seja aquela pessoa que me dá estabilidade, que me faz bem. Que me ama. Chega uma hora que a segurança no relacionamento, o companheirismo, todos aqueles sentimentos bons passam a ser mais importantes do que simplesmente a paixão. Ou você não concorda?
- Engraçado, eu esperava qualquer pessoa falando isso, mas não você.
- Não me coloque nessa capsula do tempo. Há dez anos eu era muito diferente.
- Será mesmo?
- E você? Completamente apaixonado?
- Não. Eu casei, vi que não ia ter aquilo que tive só uma vez na vida, e me separei. Agora só encontros casuais, sem compromisso.
- Já encontrou algum caso inglês?
- Já. – Disse rindo, logo em seguida ficando sério. – Eu senti tanto sua falta.
Meus olhos fixaram-se nos dele.
- Eu também. De alguma forma, sempre faltou um pedaço de mim. Mas enfim, continue sua teoria sobre termos valorizado demais nossas carreiras.
- Ah, sim. Você e sua capacidade de distrair. Então, nós renunciamos ao que dizíamos ser a coisa mais importante, o amor, por causa de nossos empregos, nossos objetivos profissionais. E hoje estamos aqui, no topo do que sonhamos e, não sei quanto a você, mas eu não sou a pessoa mais feliz do mundo.
- Mas nós não nos separamos por causa de nossas carreiras. E sei lá, eu não percebi o momento em que a vida me deu duas opções: ou sua vida pessoal ou a profissional. Eu fui levada. As circunstâncias conspiraram.
- Teria feito algo de diferente?
- Acho que sim. Ou não.
- Decida-se – Disse, rindo.
- Eu não sei! É claro que sinto falta de sentir aquilo, sabe? Mas sabe se lá como estaríamos hoje.
- Pois eu não pensaria duas vezes, se pudesse voltar àquilo.
Quando dei por mim, estávamos próximos demais, para duas pessoas já estranhas uma para a outra.
- É melhor eu ir.
- Não, por favor.
- Está tarde.
- Você não pensa que essa pode ser a última vez que estamos nos falando? Você vai sair por essa porta e vamos nos perder. De novo.
Ele pegou minha mão. E tudo voltara. Aquela sensação que você só tem quando está já sem consciência do que faz.
Os rostos se aproximaram, os lábios já se tocavam. O beijo foi intenso, como se todos os anos perdidos fossem ser recuperados. E, numa fração de segundos, afastei-o rapidamente e levantei.
- Desculpa. – Disse, ainda com minhas mãos nas dele.
- Senta aqui.
- Tchau! – Larguei-me e virei rápido, para que não visse meus olhos já marejados.
Saí daquele café sem me lembrar de pegar o guarda-chuva. No caminho para casa, as lágrimas se fundiam às gotas de chuva e eu, por mais que negasse, torcia para que essa cidade pregasse novas coincidências e colocasse-nos frente a frente, mais uma vez.
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